Lições de uma Balinha de Goma

Hoje resolvi comer balas de goma(*), coisa que me enche de satisfação e que há tempo eu não fazia. Claro que só me enche de satisfação quando o faço antes ou após as refeições, porque a velha história de que "tudo irá se misturar no estômago mesmo" não invade as minhas idéias nem me atira em gastronômica curiosidade.

Deveria também dizer que não costumo comer balas de goma após ter comido um doce mais doce do que as referidas balas. Isso porque as papilas gustativas, anestesiadas com a doçura do doce mais doce, fazem com as balas de goma tenham o mesmo gosto de rodelinhas de vela de cera. E posso dizer isso, pois já comi velas de cera.

Pois bem, estava eu mastigando e dilacerando sem misericórdia minhas balas de goma, tranqüilamente, apreciando o gosto de cada cor (foi com as balas de goma que eu descobri que as cores têm gosto, embora nem sempre combinem com os gostos das cores das gelatinas, dos chicletes e dos MM's), quando, de repente, muito de repente, numa estonteante derepência, mordi com infinita violência um objeto estranho e aparentemente sólido que parecia estar no interior de uma das minhas balas de goma.

Os músculos da minha face se contraíram de tal forma que meus olhos quase saíram pelo nariz e os cantos da minha boca quase foram se encontrar lá pela nuca. A pressão que tais músculos exerceram em minha cabeça quase me causou um traumatismo craniano, estou certo disso.

É bem verdade que mentes pouco abertas poderiam dizer que eu estou exagerando os fatos, que eu mesmo sou um indivíduo exagerado, mas eu seria capaz de ir nadando até a África e escalar o Kilimanjaro com dois garfos se isso os fizesse crer na ausência ABSOLUTA de exageros em minha pessoa.

Mas para não encompridar a história (objetivo que raramente atinjo), tratei instantaneamente, e até de forma inconsciente, de agrupar em minha mente os suspeitos de terem cometido o hediondo crime de macular o imaculável interior de minhas balas de goma.

Os primeiros suspeitos que se sucederam em minha mente foram aqueles mais óbvios, tais como: um fragmento de meteoro de Marte, um caco do muro de Berlin, uma bala da primeira guerra mundial, a falangeta do mindinho esquerdo do Papa Pio X, um parafuso da Challenger, uma cabeça humana encolhida pela tribo dos Jivaros, os encolhedores de cabeça, uma lasca da Cruz, e outras possibilidades igualmente prováveis.

Isso tudo aconteceu em 3,78 milésimos de segundo, mas foi tempo suficiente para me encher de temor pelo o que eu encontraria prensado entre meus molares. Com toda a calma que eu consegui reunir, retirei o objeto de minha boca e fitei-o por alguns segundos. Para meu espanto, descobri tratar-se tão somente de uma miserável pedra, daquelas quase redondinhas, que resistiu bravamente ao processo de fabricação da bala, e que encontrou seu fim nas mãos de uma singela balinha de goma (cheguei a conclusão que essas balas possuem muitas mãozinhas, embora microscópicas, de grande poder segurante).

Posso dizer que tirei muitas lições dessa minha obsessão. Ou ex-obsessão, já que não sou louco, embora seja louco, de continuar comendo esses pequenos demoniozinhos e acabar correndo o risco de ter meus dentes arrancados ou de sofrer coisa ainda pior, pois quem hoje lhe arranca os dentes pode muito bem querer lhe arrancar o resto da cara amanhã.

Portanto, a primeira lição que tirei deste lamentável acontecimento é que mesmo uma coisa agradável, doce, prazerosa e que custa cinqüenta centavos pode lhe custar cem reais de torturante tratamento médico.

A segunda lição que tirei é que não se pode confiar em promessas de moleza e facilidade, principalmente nas que vêm até nós, vida a fora, pelas balas de goma. Certamente alguém tão artificial, tanto no gosto quanto no aroma, sem falar na cor, não vai ter coisas boas para compartilhar em médio ou longo prazo, sobretudo se ela estiver fora do prazo.

A terceira lição que tirei é que nem tudo o que nos agride, nos causa dor e nos assusta vem necessariamente de fora. Ao contrário, na maioria das vezes o que mais nos machuca e o que mais nos faz sofrer já está lá, escondido em nós mesmos, só esperando um momento certo para sair, nos repuxar a cara e quase nos presentear com um traumatismo craniano.

E por fim, a quarta lição que eu tirei dessa história é que é mesmo muito difícil arrancar mais de três lições de uma balinha de goma.



(*) Também conhecidas como gominhas, jujubas, e por uma infinidade de outros nomes que desconheço absolutamente.

1 comentário

Magna em 22 de novembro de 2010 20:56

ALÊEEE adorei esse... sério, cara... eu tava precisando rir e por um momento me passou vc pela cabeça fazendo todas as caras e bocas supracitadas. meu bem, como sempre, vc arrasou!

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