O dia em que a casa quase caiu

AVISO: Se você não tem imaginação ou senso de humor, talvez você também não tenha bom gosto e se considera um a mais acima de tudo e de todos.. aquele que é o dono da razão e que decide se uma coisa é verdadeira ou não só por aparências... não leia esse texto e muito menos o comente!



Estava eu a me lembrar dessas minhas férias que tive agora em janeiro, isso porque, sumi do blog devido a elas e nem comentei nada do que me passou nelas... pois bem!

Eu estava proporcionando uma reestruturação organizacional em minha residência, quando o meu criado-mudo - que não é meu criado e que tampouco é mudo - perguntou-me:
- Alex, o que você vai fazer com aquelas tralhas dentro do armário? Está juntando papel pra vender por quilo? E aqueles livros velhos que estão na estante? Você está fazendo algum tipo de criação de traças? Não sei se você notou, mas os tapetes precisam desesperadamente de uma aspirada. A não ser, é claro, que você esteja deixando juntar bastante terra pra fazer uma horta.

Nada mais inconveniente do que um criado-mudo tagarela e sarcástico. Não dei muita atenção e continuei com o que eu estava fazendo.
Alguns instantes depois, ele emendou:
- Olha, Alex, eu não sei o que você está planejando fazer por aqui, mas se é algo pra melhorar a aparência desse pardieiro eu sou obrigado a dizer que não está funcionando. Eu admiro os seus esforços, mas bem se nota que seu gosto não é lá essas coisas. Graças aos céus você não é decorador, senão...

Nessa hora, o cabide, que até então estava só ouvindo, meteu a colher:
- Veja bem, meu caro! Veja bem, tenho dito. Não me parece certo, veja bem, colocar aquele quadro ali, meu caro. Se você tentasse, veja bem, mais à direita, sobre o camiseiro, eu creio, veja bem, que ficaria melhor, meu caro. Tenho dito.

Por que será que todos os móveis adoram dar opiniões? Estava tentando encarar aquilo como um teste de serenidade quando o camiseiro se atravessou:
- Hei, Alex! Por que você não passa uma tinta nessa parede, meu chapa? Pelo menos daria uma aparecia de nova pra ela.
Ouvindo isso, esbravejou a injuriada parede:
- E você? De qual leilão de antiguidades lhe arremataram? Vá se olhar no espelho, palhaço!
- Dá-lhe, parede! Mostra pra esses zebus quem é que manda por aqui! - provocou o criado-mudo.

O cabide, visivelmente irritado com o criado-mudo, não sustentou mais sua elegância e disse:
- Veja bem, tampinha, você, meu caro, faz melhor em calar sua bocarra e, veja bem, comportar-se como um criado-mudo de verdade. Tenho dito.

E as ofensas começaram a tomar proporções assustadoras. Quando dei por conta, minha casa havia se transformado em um campo de guerra. Todos os móveis, as paredes, o teto e até o chão haviam entrado na briga, e a baixaria era generalizada.

Entre um xingamento e outro, escapou:
- Isso tudo é culpa do Alex!

Aquilo era a gota d'água! Não sei quem proferiu tais palavras, mas não era preciso ouvir mais nada. Eu simplesmente não podia deixar aquele motim continuar impunemente. Soltei um estridente assovio e, tentando mostrar-me o mais tranqüilo possível, proferi:
- Creio que vocês estão com a razão. Não somente estão com a razão como estão mergulhados nela até o pescoço (metaforicamente falando). A culpa disso tudo certamente é minha, e tão pesada está minha consciência que resolvi consertar tudo o mais rápido possível. Segunda-feira eu irei alugar um apartamento, um daqueles bem pequenos, e viverei uma vida o mais despojadamente possível. Não possuirei móvel algum, dormirei no chão, sobre um tapume, e comerei sentado sobre almofadas, certo de que serei muito mais feliz.

A essa altura, o silêncio era sepulcral. Mas o discurso ainda não havia acabado:
- Obviamente não poderei levá-los comigo, o que não me deixará outra opção senão a de vendê-los a quem desejar comprar móveis antigos, ou então os doar a alguma instituição de caridade. Estou certo que arranjarão um novo lar para todos, com muitos cães, gatos e crianças arteiras para lhes fazer companhia. Quanto à casa, creio que terei de vendê-la também. Espero que uma pacata família a compre, mas o destino provável é que aquela construtora finalmente consiga levantar um edifício aqui. Bem, é a vida, não é mesmo?

Quando terminei, um milagre havia sido operado. As gentilezas e a cooperação se tornaram a ordem do dia, e todos pareciam renovados por uma profunda e superior compreensão. A paz novamente reinava, e o silêncio e a tranqüilidade eram o que se sentia no ar.

Não aprecio o uso de táticas terroristas, mas essas costumam ser as únicas que funcionam quando objetos inanimados começam a ficar muito animadinhos.

1 comentário

Magna em 26 de abril de 2011 21:44

E eu já disse que sou fã??? Adooooro quando escreve assim!!! Gostei mto, dá-lhe imaginação.

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