FÁBULAS ALUCINADAS

Apenas um Qualquer e o Monstro Da Caverna

Feliz e despreocupado andava Apenas um Qualquer pelo mundo (e por onde mais haveria de ser?), quando percebeu, para seu espanto, que perdido estava. A noite caía e o frio terrível ameaçava descontinuar sua existência.

Procurou abrigo e encontrou uma funda, escura e apavorante caverna, mas sem alternativas e já desfalecendo pela ação do frio, entrou.

À medida que penetrava na lúgubre gruta sentia que algo o observava atentamente. Com medo, resolveu voltar, mas ao tentar sair deparou-se, bafo-a-bafo, com a mais terrível, medonha, monstruosa, aterrorizante e grotesca criatura que seus olhos ou quaisquer outros olhos já haviam visto: O monstro da caverna.

Apenas um Qualquer correu como um louco, e só conseguiu enfiar-se mais para dentro na labiríntica toca. Acabou encurralado entre duas estalagmites e completamente grogue pelo ultrafétido jato de urina que o monstro lançou sobre ele.

O Monstro, mostrando todos os dentes que possuía em sua enorme bocarra, perguntou ao Apenas um Qualquer, com a mais apavorante voz já emitida por um ser vivo, o que ele queria ali na sua caverna.

Apenas um Qualquer, atordoado pelos efeitos alucinógenos do monstruoso mijo, respondeu ao monstro.

O monstro, ao ouvir aquela resposta, lembrou de velhas histórias de seu passado e resolveu não trucidar o invasor, ao menos naquele momento, e perguntar-lhe por que estava cruzando aquela mata fechada a essa hora da noite.

Apenas um Qualquer, já saindo de seu tonteio químico, abaixou a cabeça e disse porque resolveu caminhar por aquelas terras, em vez de usar o meio de transporte apropriado para a região.

Sentindo que o monstro não era assim tão mal quanto parecia (afinal, ele o havia poupado até aquele momento), procurou iniciar um diálogo, na tentativa de conseguir convencer a criatura a libertá-lo. Sem saber muito bem por onde começar, perguntou ao ente se ele estava só naquela escura caverna.

Ele respondeu que gostava de paz e silêncio e ameaçou partir para cima de Apenas um Qualquer, que logo pegou seu banjo de estimação e disse:
- Espera aí Sr. monstro, deixe-me alegrar um pouco essa sua toca com minha música.

O monstro, alucinado pelos estridentes acordes em seus sensíveis ouvidos, tomou o banjo das mãos de Apenas um Qualquer e o mastigou.

Vendo a besteira que havia feito, Apenas um Qualquer atirou-se de joelhos pedindo perdão por tamanha idiotice e tornou a inquirir o monstro, mas dessa vez tentando tocar o seu lado sentimental, se é que existia tal coisa em tal criatura.

Perguntou-lhe então onde estava sua companheira, pois certamente viver naquele covil sem uma outra alma pra lhe fazer companhia deveria ser muito triste.

O monstro, baixando sua cabeça em visível tristeza e deixando cair seus braços até suas mãos tocarem o solo (os braços dos monstros são bem compridos) contou então para Apenas um Qualquer o que houve entre ele e a sua monstrinha, e como a perdeu.

Ali estava, era sua chance de conseguir ajudar o monstro - e a si mesmo, por tabela - e conquistar sua amizade. Tratou logo de perguntar o que havia ocorrido, dizendo que seria muito bom desabafar isso com alguém (vivo, de preferência).

O monstro então sentou no chão e com lágrimas, contou-lhe como sentia remorso das coisas ruins que havia dito e como queria consertá-las. Contou-lhe de seu amor pela monstrinha e de como a queria de volta, embora cresse que isso jamais ocorreria.

Apenas um Qualquer, conhecendo a alma feminina como ninguém (ninguém dentro daquela caverna, pelo menos), falou o que o monstro precisava para ter sua garota de volta. Disse-lhe que não precisava ter medo, pois se ela amasse da mesma forma que ele, saberia reconhecer sua mudança e o aceitaria de volta.

Disse ainda que ele poderia cantar uma canção apaixonada para ela, visto que isso sempre ajuda.

Só que Apenas um Qualquer ficou preocupado com algo. Pensou ele com seus botões: "Se a voz desse monstro é tão horrível assim, talvez ele não saiba cantar e, tentando assim mesmo, certamente sairá pela culatra o nosso tiro!". Querendo acabar com essa dúvida, pediu ao monstro que cantasse algo, só para treinar um pouco.

E o monstro cantou. E como cantou.

Apenas um Qualquer disse que ele estava pronto e que tinha absoluta confiança que haveria de ser bem sucedido em sua empreitada.

E saíram daquela caverna cantando e sorrindo como nunca. O monstro, pelo novo ânimo adquirido e pela nova perspectiva de vida. Já Apenas um Qualquer, somente pela perspectiva de vida, mas era mais do que suficiente por aquele dia.

Contam as lendas que eles reataram seus laços, que tiveram muitos monstrinhos e que viveram monstruosamente, mas felizes para sempre.

2 comentários

Karla Hack dos Santos em 5 de outubro de 2011 08:45

Logo que comecei a ler nunca imaginaria o final! Bem interessante a forma como vc foi desenvolvendo... Ah, aquele trecho em que vai entrando na caverna me fez pensar nas cenas finais do filme It!

;D

Carol em 6 de outubro de 2011 10:10

Finalmente um blog de alguém que realmente tem algo a dizer!Muito bom,estou seguindo!
Espero sua visita:
http://blushbatom.blogspot.com/

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