A Fila

Não pude deixar de perceber como são belas e harmoniosas as filas. É bem verdade que, quando grandes e imóveis, eu as abomino do fundo de minha alma. Entretanto, isso não significa que ignoro seus valores civilizatórios e seus intrínsecos efeitos anticaóticos.

Seu nome de batismo é "fila indiana" e ela pode até ter realmente nascido na Índia, eu não sei, mas foi no Brasil que ganhou seu status e reivindicou para sempre seu espaço, tornando-se "fila indiana da silva", ou simplesmente "fila".

Domingo passado, ao observar a referida entidade enquanto aguardava para entrar no cinema, pude vislumbrar suas profundas propriedades e seus significados superiores. Tal contemplação me fez realmente compreender a verdade de que tudo na natureza é regulado por regras básicas e por formas simples e repetitivas que, quando replicadas à exaustão, descrevem realidades enormes e complexas. Da mesma forma que os fractais, criaturas bizarras que vivem em uma dimensão não inteira e que guardam mesmo em um pequenino pedaço a característica de todo o conjunto, as filas e suas características são a representação da sociedade que as produz.

Digo isso porque, a menos de dois metros atrás de minha posição na fila, um grupo de quatro pessoas que havia chegado em cima da hora pediu, ao encontrar um conhecido, um "furo" para que não precisasse ir para o final da mencionada fila.

Para Apenas um Qualquer, observar tal acontecimento, mesmo que aparentemente não afete a sua condição, é como receber um jato de spray de pimenta nos olhos, sem falar que ouvir a expressão "Me dá um furo, please?" é equivalente a ouvir:
- Posso aproveitar-me de sua melhor colocação em relação aos meus semelhantes e, tirando vantagem disso, colocar-me em uma condição mais favorável, mesmo que com isso esteja ferindo o direito e os esforços do próximo, contribuindo para a manifestação das injustiças sociais, ainda que em pequena escala, e, ao agir assim, desconsiderar todas as mais básicas regras de civilidade que, em últimas palavras, são o que impede que nossa espécie retorne à barbárie, please?

Pode parecer exagerado e desproporcional esse pensamento, mas, devido à freqüência que tais acontecimentos teimam em acontecer, não posso deixar de me inquietar com o fato de que vivemos em uma sociedade em que muitos não conseguem, não sabem ou não querem respeitar nem ao menos uma simples fila, quanto mais o bem estar alheio, os cofres públicos, etc.
Alguém pode estar se perguntando:
- Esse lunático está dizendo que a culpa da desesperada corrupção e das terríveis aflições que as massas empobrecidas e exploradas enfrentam todos os dias em nosso depredado país deve-se aos "furos" nas filas?

Obviamente não, eu lhe responderia. Entretanto, como mencionei antes, elas são um excelente referencial cultural e, assim como um minúsculo pedaço de fractal revela a peça toda, elas englobam e revelam, em sua insignificância, as características da sociedade como um todo, boas e más.

Estava eu naquela fila imerso nessas reflexões quando o sujeito atrás de mim bateu em meu ombro e, apontando o enorme espaço que já havia entre o indivíduo à minha frente e eu, em tom de semi-brincadeira, disse:
- Ou anda ou sai da estrada!

Esse também me pareceu um pensamento bastante profundo.

2 comentários

Karla Hack dos Santos em 6 de outubro de 2011 10:11

Filas são definitivamente algo "pitoresco".. com certos tipos específicos em todas!
Bem interessante seu post...

;D

Café de Fita em 6 de outubro de 2011 10:59

"uma fila homerica
não sabia, que
já era poesia"

são reflexões que, acho eu, todos tem ou deveriam ter numa fila de espera.
no começo de setembro, enfrentei uma dessas filas por mais de duas horas para pegar ingresso para o espetaculo de Philip Glass(que era de graça mas com limite de 400 lugares) e o que debatiamos nela era exatamente isso, a falta derespeito, quem furasse a fila estaria roubando literalmente o lugar de alguém.

mas eu até que gosto de filas, como, no ponto de ónibus, por exemplo.

http://cafedefita.blogspot.com/

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