Desvendando o símbolo perdido parte 3

Já que nesse começo de semana o blog anda muito parado resolvi dar continuidade a pequena sequência de vídeos sobre os símbolos perdidos. Segue para vocês: Desvendando o símbolo perdido parte 3. Lembrando que essa sequência possui 4 vídeos, sendo este o penúltimo, quem quiser assistir os anteriores estão disponíveis na página Apenas um Qualquer Vídeo, ou clicando aqui.

Desvendando o símbolo perdido parte 2

Seguindo o primeiro vídeo ai vai a segunda parte de 4 vídeos.
Obs: Lembrando que todos os vídeos que postarmos no blog se encontrarão na pagina Apenas um Qualquer Vídeo.
Quem não viu a primeira parte clique aqui.

A Fila

Não pude deixar de perceber como são belas e harmoniosas as filas. É bem verdade que, quando grandes e imóveis, eu as abomino do fundo de minha alma. Entretanto, isso não significa que ignoro seus valores civilizatórios e seus intrínsecos efeitos anticaóticos.

Seu nome de batismo é "fila indiana" e ela pode até ter realmente nascido na Índia, eu não sei, mas foi no Brasil que ganhou seu status e reivindicou para sempre seu espaço, tornando-se "fila indiana da silva", ou simplesmente "fila".

Domingo passado, ao observar a referida entidade enquanto aguardava para entrar no cinema, pude vislumbrar suas profundas propriedades e seus significados superiores. Tal contemplação me fez realmente compreender a verdade de que tudo na natureza é regulado por regras básicas e por formas simples e repetitivas que, quando replicadas à exaustão, descrevem realidades enormes e complexas. Da mesma forma que os fractais, criaturas bizarras que vivem em uma dimensão não inteira e que guardam mesmo em um pequenino pedaço a característica de todo o conjunto, as filas e suas características são a representação da sociedade que as produz.

Digo isso porque, a menos de dois metros atrás de minha posição na fila, um grupo de quatro pessoas que havia chegado em cima da hora pediu, ao encontrar um conhecido, um "furo" para que não precisasse ir para o final da mencionada fila.

Para Apenas um Qualquer, observar tal acontecimento, mesmo que aparentemente não afete a sua condição, é como receber um jato de spray de pimenta nos olhos, sem falar que ouvir a expressão "Me dá um furo, please?" é equivalente a ouvir:
- Posso aproveitar-me de sua melhor colocação em relação aos meus semelhantes e, tirando vantagem disso, colocar-me em uma condição mais favorável, mesmo que com isso esteja ferindo o direito e os esforços do próximo, contribuindo para a manifestação das injustiças sociais, ainda que em pequena escala, e, ao agir assim, desconsiderar todas as mais básicas regras de civilidade que, em últimas palavras, são o que impede que nossa espécie retorne à barbárie, please?

Pode parecer exagerado e desproporcional esse pensamento, mas, devido à freqüência que tais acontecimentos teimam em acontecer, não posso deixar de me inquietar com o fato de que vivemos em uma sociedade em que muitos não conseguem, não sabem ou não querem respeitar nem ao menos uma simples fila, quanto mais o bem estar alheio, os cofres públicos, etc.
Alguém pode estar se perguntando:
- Esse lunático está dizendo que a culpa da desesperada corrupção e das terríveis aflições que as massas empobrecidas e exploradas enfrentam todos os dias em nosso depredado país deve-se aos "furos" nas filas?

Obviamente não, eu lhe responderia. Entretanto, como mencionei antes, elas são um excelente referencial cultural e, assim como um minúsculo pedaço de fractal revela a peça toda, elas englobam e revelam, em sua insignificância, as características da sociedade como um todo, boas e más.

Estava eu naquela fila imerso nessas reflexões quando o sujeito atrás de mim bateu em meu ombro e, apontando o enorme espaço que já havia entre o indivíduo à minha frente e eu, em tom de semi-brincadeira, disse:
- Ou anda ou sai da estrada!

Esse também me pareceu um pensamento bastante profundo.

FÁBULAS ALUCINADAS

Apenas um Qualquer e o Monstro Da Caverna

Feliz e despreocupado andava Apenas um Qualquer pelo mundo (e por onde mais haveria de ser?), quando percebeu, para seu espanto, que perdido estava. A noite caía e o frio terrível ameaçava descontinuar sua existência.

Procurou abrigo e encontrou uma funda, escura e apavorante caverna, mas sem alternativas e já desfalecendo pela ação do frio, entrou.

À medida que penetrava na lúgubre gruta sentia que algo o observava atentamente. Com medo, resolveu voltar, mas ao tentar sair deparou-se, bafo-a-bafo, com a mais terrível, medonha, monstruosa, aterrorizante e grotesca criatura que seus olhos ou quaisquer outros olhos já haviam visto: O monstro da caverna.

Apenas um Qualquer correu como um louco, e só conseguiu enfiar-se mais para dentro na labiríntica toca. Acabou encurralado entre duas estalagmites e completamente grogue pelo ultrafétido jato de urina que o monstro lançou sobre ele.

O Monstro, mostrando todos os dentes que possuía em sua enorme bocarra, perguntou ao Apenas um Qualquer, com a mais apavorante voz já emitida por um ser vivo, o que ele queria ali na sua caverna.

Apenas um Qualquer, atordoado pelos efeitos alucinógenos do monstruoso mijo, respondeu ao monstro.

O monstro, ao ouvir aquela resposta, lembrou de velhas histórias de seu passado e resolveu não trucidar o invasor, ao menos naquele momento, e perguntar-lhe por que estava cruzando aquela mata fechada a essa hora da noite.

Apenas um Qualquer, já saindo de seu tonteio químico, abaixou a cabeça e disse porque resolveu caminhar por aquelas terras, em vez de usar o meio de transporte apropriado para a região.

Sentindo que o monstro não era assim tão mal quanto parecia (afinal, ele o havia poupado até aquele momento), procurou iniciar um diálogo, na tentativa de conseguir convencer a criatura a libertá-lo. Sem saber muito bem por onde começar, perguntou ao ente se ele estava só naquela escura caverna.

Ele respondeu que gostava de paz e silêncio e ameaçou partir para cima de Apenas um Qualquer, que logo pegou seu banjo de estimação e disse:
- Espera aí Sr. monstro, deixe-me alegrar um pouco essa sua toca com minha música.

O monstro, alucinado pelos estridentes acordes em seus sensíveis ouvidos, tomou o banjo das mãos de Apenas um Qualquer e o mastigou.

Vendo a besteira que havia feito, Apenas um Qualquer atirou-se de joelhos pedindo perdão por tamanha idiotice e tornou a inquirir o monstro, mas dessa vez tentando tocar o seu lado sentimental, se é que existia tal coisa em tal criatura.

Perguntou-lhe então onde estava sua companheira, pois certamente viver naquele covil sem uma outra alma pra lhe fazer companhia deveria ser muito triste.

O monstro, baixando sua cabeça em visível tristeza e deixando cair seus braços até suas mãos tocarem o solo (os braços dos monstros são bem compridos) contou então para Apenas um Qualquer o que houve entre ele e a sua monstrinha, e como a perdeu.

Ali estava, era sua chance de conseguir ajudar o monstro - e a si mesmo, por tabela - e conquistar sua amizade. Tratou logo de perguntar o que havia ocorrido, dizendo que seria muito bom desabafar isso com alguém (vivo, de preferência).

O monstro então sentou no chão e com lágrimas, contou-lhe como sentia remorso das coisas ruins que havia dito e como queria consertá-las. Contou-lhe de seu amor pela monstrinha e de como a queria de volta, embora cresse que isso jamais ocorreria.

Apenas um Qualquer, conhecendo a alma feminina como ninguém (ninguém dentro daquela caverna, pelo menos), falou o que o monstro precisava para ter sua garota de volta. Disse-lhe que não precisava ter medo, pois se ela amasse da mesma forma que ele, saberia reconhecer sua mudança e o aceitaria de volta.

Disse ainda que ele poderia cantar uma canção apaixonada para ela, visto que isso sempre ajuda.

Só que Apenas um Qualquer ficou preocupado com algo. Pensou ele com seus botões: "Se a voz desse monstro é tão horrível assim, talvez ele não saiba cantar e, tentando assim mesmo, certamente sairá pela culatra o nosso tiro!". Querendo acabar com essa dúvida, pediu ao monstro que cantasse algo, só para treinar um pouco.

E o monstro cantou. E como cantou.

Apenas um Qualquer disse que ele estava pronto e que tinha absoluta confiança que haveria de ser bem sucedido em sua empreitada.

E saíram daquela caverna cantando e sorrindo como nunca. O monstro, pelo novo ânimo adquirido e pela nova perspectiva de vida. Já Apenas um Qualquer, somente pela perspectiva de vida, mas era mais do que suficiente por aquele dia.

Contam as lendas que eles reataram seus laços, que tiveram muitos monstrinhos e que viveram monstruosamente, mas felizes para sempre.
 
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